por J. Isaías Venera
Ao completar 20 anos de luta em defesa da categoria de professores do ensino de Itajaí e região, o SINPRO se depara com um cenário desolador: o drama humano de milhares de pessoas atingidas pelas enchentes que assolaram a região. Diante da tragédia que se iniciou no dia 22 de novembro, todas as ações se dissolvem na frágil condição em que as pessoas foram submetidas. Fronteiras profissionais e classistas cederam espaço para um território de pessoas que ficaram anônimas.
Na quarta-feira (26), quando as águas baixaram, Itajaí ficou semelhante a um estado de guerra. Casas e ruas cobertas por uma camada de lama. Logo, as calçadas foram cedendo espaço para móveis e objetos estragados. A paisagem urbana se assemelhou àqueles cenários de guerras comuns em centenas de filmes e documentários. Além da paisagem, o mau cheiro fez com que as enchentes perdurassem em um dos nossos cinco sentidos.
Diante da impotência, uma grande rede de solidariedade se estendeu. A tragédia despiu boa parte das pessoas do manto capitalista, que, muitas vezes, mantém relação medida por objetos, por capital.
Para Adércia Hostin, presidente do SINPRO Itajaí e Região, a forma como as pessoas reagiram é um exemplo de que sempre vale a pena lutar por um amanhã melhor, mais solidário. “Ficamos todos anônimos. As pessoas se ajudaram sem perguntar nomes e credenciais”. No relato de quem trabalhou num dos condomínios mais atingidos pelas cheias, o Itamirim, à margem do Rio Itajaí-Mirim, percebe-se que as barreiras invisíveis caíram. “Vizinhos que não se conheciam, uniram-se”.
No relato, a cena mais impressionante foi a de uma família, que ao receber uma “cuca” – um bolo simples comum no sul – sorriu e ao entrar em casa, comentou com uma criança: “alguém lembrou de você”. Enquanto Adércia se afastava da casa, um coro cantava “parabéns pra você”.
Para a categoria, fica a experiência do professor de História Francisco Braun Neto, que viu sua biblioteca, com mais de 800 livros, encharcada de água e lama. “Comecei a jogar meus livros num saco de lixo, mas evitai olhá-los, para não reconhecer os títulos e autores”.
Solidariedade e desapego aos objetos fizeram das enchentes um aprendizado: o ser humano está sempre em primeiro lugar. Parece óbvio, mas não é. A experiência na tragédia nos leva a ver a vida destituída dos valores capitalistas.

4 respostas Até agora ↓
Valéria de Oliveira // 10 10UTC Dezembro 10UTC 2008 às 13:36
Li uma vez na introdução de uma monografia que o que transforma as sociedades não é a arte e sim as guerras. Custei um tempo para aceitar isso, logo eu que sou do campo da arte. Porém, hoje entendo o que isso queria dizer. E, é bem isso, só uma guerra, um desastre para abrir um espaço, uma lacuna, uma trégua. Somente uma desgraça de tal tamanho para desarmar, afrouxar e ver como temos seguido no mundo e como estamos encaminhando nossa sociedade. A catástrofe nos obrigou a um “stop” para despertarmos os nossos sentidos já tão amortecidos pelo shopping Center. Que espaço fértil esse do território de anônimos.
Importante será o pós-trauma, o momento de eterna vigilância, porque o manto capitalista está ali, logo ali, bem pertinho, pronto para nos abrigar, pronto para acariciar um por um, individualmente. Nada de derramar o manto sobre todos, aliás, coletividade é uma palavra que não combina com capitalismo.
Nossa grande vizinhança se uniu, e precisa manter-se unida para criar um olho bem grande, um olho do bem, e enfim este olho manter um olhar firme, atento e desapegado. Desapegado do material excessivo, mas apegado aos afetos fraternos. Desapegados dos livros e seus autores, mas apegado a uma palavra de amor. Despegado da palavra escrita, mas atento a palavra proferida.
Enfim aqui meu desejo de uma vida de amor, uma palavra utópica, escassa de nosso vocabulário, tão limitada em nossos atos (e que tem me perseguido em reflexões nestes últimos tempos). Amor, palavra que alberga em si, outras, como respeito, solidariedade, carinho, abraço, beijo, olhar, perdão, compreensão. Amor, esta é a palavra-chave para esse momento tão frágil, onde as necessidades básicas do ser humano estão em risco. Amor que não mata a fome do corpo, mas alivia o coração, alimenta a alma.
Não há outra palavra que não dor e urgência, para expressar esse momento da cidade de Itajaí, então aqui, estendo às atitudes de todos que estão diariamente na prática de auxiliar na resolução das necessidades básicas de toda população, meu respeito com amor.
A todos dessa linda cidade, a todas as famílias que convivo na Murta, no Brejo, no Campos Novos, São Vicente, Pró-morar, a todos os colegas do Sinpro, a todos os Professores, a todos os jovens que mostraram sua força, a todos os incansáveis voluntários, a minha mãe que por dias produziu pães para seu bairro, a todos os homens e mulheres dessa cidade, a todas as crianças que brincaram na chuva e na lama e me fizeram sorrir onde nada mais tinha graça… Reafirmo a palavra AMOR.
Valéria de Oliveira
Isaías // 11 11UTC Dezembro 11UTC 2008 às 15:46
Bonitas palavras Valéria. Considero que quando deparamos com nossa impotência, é que ficamos mais sensíveis. É também quando estamos mais abertos para o diferente. E para criar. F. Nietzsche fala da criação na tragédia. Fala-nos também da vida como uma obra de arte. É na tragédia que nos superamos. Gosto sempre de pensar na MPB. O momento mais rico da MPB, para mim, é o que foi produzido no período da ditadura militar. É um exemplo de como o potencial de criação está relacionado diretamente com a nossa experiência. Com a nossa vivência…. Quando o real nos atravessa, independente de nossa capacidade de simbolização, ficamos por um certo tempo despedaçados. Até nosso imaginário juntar os caquinhos e dá outra forma, é o momento em que estamos mais abertos a criação, ao diferente e a rever nossas posições enquanto sujeitos mergulhados num mundo medido pela mercantilização da vida.
Raquel // 12 12UTC Dezembro 12UTC 2008 às 21:20
Para mim, esse real que nos atravessou foi um tapa violento da própria impotencia. Foi estar cara a cara com a falta, com a ausencia de poder alguma coisa, com a própria impotencia humana. Então quando criamos um jeito de fazer, de ajudar, de resolver… considero que além de fazer para o outro existe um fazer para nós mesmos. Uma tentativa de nos convecer que podemos superar a falta. Essa falta se faz desejo e nos faz criar e fazer, fazer, fazer!
Ulrich // 14 14UTC Dezembro 14UTC 2008 às 00:12
Não vivi de perto a tragédia. Mas acompanhei, mesmo de longe, seu desenrolar. Vejo as imagens, os depoimentos e me bate uma tristeza tão profunda… Isso porque mais uma vez vejo as vítimas, indefesas, e invariavelmente trabalhadores. Sim, pois por mais que digam que um ou outro burguês teve a mansão ou o carro importado atingido, sei que seus milhões nas contas bancárias logo suprirão suas necessidades. Mas e o povo? Mas e as crianças? É importante notar nos vossos relatos a capacidade de reação dos trabalhadores. Quando precisamos, não esperamos pelos patrões, não esperamos pelo governo. Isso é prova mais que cabal de que instintivamente buscamos soluções coletivas. Por mais que o sistema capitalista nos eduque para o individualismo, para a competição, nossa “humanidade” sempre ressurge. E foi assim desde os primórdios. O homem sempre buscou saídas coletivas. Nossos ancestrais caçavam juntos, partilhavam suas refeições e habitavam choupanas coletivas. Viver coletivamente nos torna felizes, nos realiza e nos faz crescer. A necessidade de ajudar, de buscar saídas coletivas, renova o poder criativo do ser humano. E isso se expressa nas artes. Por isso a arte na Ditadura foi tão expressiva. Por isso, em tempos de massificação do sistema capitalista, a arte se torna tão banal, patética, insossa. As tragédias não deveriam existir. Se existem, são conseqüência do sistema. E deixam grandes lições. Oxalá possamos aprender com elas. E penso que uma lição fundamental é essa: Juntos, organizados, mobilizados, podemos transformar a realidade, podemos avançar rumo a outro modelo de sociedade, onde não haja mais a exploração do homem pelo homem, onde a arte, os valores, o pensamento sejam libertos. Onde homens e mulheres possam SER, sem restrições.