
foto: J. I. Venera
Além de toda a destruição, do desespero e dos prejuízos – materiais e humanos – provocados, a enchente que atingiu Itajaí e região em novembro do ano passado teve um outro lado. O esforço para recuperar as perdas com a tragédia trouxe à tona valores como a solidariedade, o cuidado com o outro e a preocupação com questões (e vidas) humanas. Esta atenção a elementos que antes pareciam tão esquecidos foi materializada na ação coletiva e no trabalho voluntário.
Como exemplo, podemos citar o caso de Ana Felipe Reis, 89 anos, moradora da localidade de Rio Pequeno, em Itajaí. A fúria da natureza tornou inabitável a casa de madeira onde morava Dona Ana. Com a moradia condenada, ela ficou abrigada na residência de uma vizinha.
Quando parecia não haver saída para ela, entrou em cena o grupo de pessoas que tornou possível a reconstrução da sua casa. O impulso inicial aconteceu quando o voluntário Ivan Sanchez Bornes, de Porto Alegre, procurou caminhos para trabalhar pela reconstrução das cidades catarinenses atingidas pela enchente. Desta forma, acabou fazendo contato com o SINPRO Itajaí e Região.
Com apoio do Sindicato, que já conhecia e planejava algumas ações em prol de Dona Ana, Ivan coordenou o projeto de reconstrução da sua casa, ao lado de Francisco Braun Neto e Carlos Francisco dos Santos. Juntaram-se a eles diversos voluntários, alguns também vindos de diversas partes do estado e do país, além de vizinhos e pessoas ligadas ao Sindicato. O SINPRO Itajaí e Região contribuiu com a doação de capital para a obra, além de alimentação, transporte e estadia para os voluntários.
Após algumas reuniões, o grupo concluiu que a casa atingida pela enchente não poderia ser reaproveitada com uma reforma: seria necessária a sua demolição e a construção de uma nova moradia para Dona Ana.

foto: J. I. Venera
“O trabalho de todos os que passaram pela casa de Dona Ana foi indispensável”, avalia Ivan Bornes. A construção começou em 22 de dezembro e foi entregue no dia 4 de janeiro, quando Dona Ana passou a primeira noite em seu novo lar.
O grupo enfrentou uma série de desafios para levar adiante o projeto, como as questões burocráticas e a decisão de assumir a reconstrução da casa como uma iniciativa independente. Depois, faltava ainda organizar um plano de ação que coubesse dentro do orçamento e pudesse ser executado dentro do curtíssimo prazo disponível. E durante um período com dois feriados importantes que faziam o comércio fechar: Natal e Ano Novo.
“Foi uma grande experiência, um aprendizado de vida e de trabalho também”, reflete Francisco Braun Neto. Ele mesmo é um exemplo disso. Além dos conhecimentos de marcenaria, encanamento e eletricidade, ele acabou até aprendendo a trabalhar com betoneiras durante a obra.
Para Braun, além das diversas pessoas que passaram pela obra, também merece destaque o envolvimento dos vizinhos. “Eles foram chegando de mansinho e começaram a ajudar. No final, a casa estava cheia de vizinhos ajudando”, relata.
A princípio desconfiados com algo que parecia uma “promessa fácil” de construir uma nova casa para Dona Ana, os moradores próximos foram chegando, dispostos a ajudar da forma como podiam. De acordo com Braun, até mesmo Dona Ana parecia descrente quanto à iniciativa. “Ela estava bastante desconfiada no início”, lembra. “Eu não acreditava. Custei muito a acreditar no começo, quando ainda tinha a casa velha. Achei que ia custa muito a sair”, revela agora a moradora.

foto: André Pinheiro
Mas, apesar incredulidade inicial, o movimento foi aumentando até que, entre os dias 2 e 4 de janeiro, havia aproximadamente 15 pessoas trabalhando simultaneamente na casinha, incluindo senhoras e crianças. Com a necessidade de cumprir o prazo, os trabalhos começavam cada vez mais cedo e avançavam até tarde da noite. “Construir uma casa foi uma novidade. Ainda mais pelo pouco tempo em que foi feita”, admira-se Francisco Braun.
Opinião semelhante tem Carlos Francisco dos Santos: “quando começamos, não imaginei o quanto seria importante para Dona Ana. E foi também ao longo do processo que descobri que este trabalho não era uma coisa pequena”. Ele observa ainda que um dos grandes resultados da iniciativa foi a criação de uma verdadeira rede de solidariedade, inclusive com a reaproximação de “pessoas que moravam próximas e não se falavam há tempos”.
A casa de Dona Ana tornou-se, então, um verdadeiro ponto de encontro, enquanto voluntários empenhavam-se em trabalhos como pintura, limpeza e encanamento. A solidariedade também se manifestou por meio de doações, como madeiras, tijolos e sacos de cimento, e outras colaborações.
Após a casa ser erguida e Dona Ana finalmente ocupá-la, Ivan retornou a Porto Alegre para retomar seus compromissos. Mesmo a distância, não perdeu de vista o projeto, mantendo-se sempre em contato com as pessoas que prosseguiam com o trabalho. Neste momento, houve uma renovação de forças, com novos voluntários aderindo à iniciativa, empenhados em outras etapas, como a construção de um novo rancho e do muro dos fundos do terreno, além de atender um pedido da ilustre moradora: a confecção de um jardim para Dona Ana.

foto: J. I. Venera
No dia 24 janeiro, um sábado, Ana Felipe Reis completou 89 anos de idade. Durante a comemoração, sua casinha já contava com o jardim e o rancho concluídos, além do muro dos fundos do terreno parcialmente construído. Vizinhos e voluntários, que se transformaram em novos amigos, vieram e lotaram a casa para dar os parabéns a Dona Ana.
Demonstrando intensa felicidade, a anfitriã distribuiu sorrisos, cantou, declamou versos e até dançou. Ao soprar as velas e fazer o agradecimento, afirmou emocionada: “esse pessoal caiu do céu”, referindo-se aos voluntários.
Dois dias depois, a casa já recebia melhorias na instalação elétrica. Foi nesta ocasião que Dona Ana revelou sua desconfiança inicial quanto à reconstrução de sua casa. Depois de testemunhar a força da cooperação e do trabalho voluntário, afirmou: “quando a casa ficou pronta, a gente confiou. E agora ainda estão arrumando”.
Francisco Braun define todo este trabalho como um grande aprendizado, uma verdadeira lição de vida. “Inclusive pela perseverança de Dona Ana, que foi guerreira, acompanhava toda a construção e só ia para a casa da vizinha onde estava hospedada para dormir. Às vezes ela até cochilava acompanhando a obra, mas não arredava pé”, ressalta.
Para ele e também para os outros voluntários que participaram da iniciativa, a casa de Dona Ana tornou-se um símbolo e uma prova concreta de que é possível realizar pequenos milagres, motivados por sentimentos nobres como a abnegação e o desejo de servir. Por isso, aqueles que estiveram presentes neste momento são gratos a Dona Ana pela oportunidade de aprender grandes lições nesta verdadeira aula de solidariedade.
* Texto: André Pinheiro – Jornalista SC 01159/JP

foto: André Pinheiro