
Entrevista: Maria Conceição Pereira
“Para eliminar o preconceito, é preciso construir um novo saber. Então, é primordial a formação de professores, a formação de uma nova sociedade”, afirma a militante do movimento negro Maria Conceição Pereira. Integrante do Instituto Isabel Costa de Inclusão Social, a professora aposentada foi também titular da Coordenadoria da Promoção da Igualdade Racial de Itajaí, criada em 2005, durante o Governo Popular.
Nesta entrevista, que tem como tema principal a Consciência Negra, Conceição define: “Ser negro é questão de atitude, saber que é de uma raça sofrida, você conhecer a história e defender a história, e, para isso, assumir de coração, assumir, de alma, toda essa história”.
O que podemos entender por consciência negra?
É realmente a questão da consciência, do entendimento. Eu acho que é conscientizar a população sobre a questão racial. Então é formar esta consciência, construir este novo conhecimento para o cidadão, de modo geral, não só para os negros. Isso, para mim, é ter consciência negra.
A consciência negra, então, não diz respeito somente aos afrodescendentes, mas a toda a sociedade…
A toda a sociedade. O maior erro é achar que esta é uma questão só da população negra no Brasil. E, no entanto, é uma construção de um todo, de uma sociedade em geral. Porque o que acontece com a sociedade, muitas vezes, é não ter a consciência da questão racial como deveria ter. E esse entendimento deveria ser de todo o grande grupo, de toda a sociedade, realmente, de toda a raça. Porque algumas pessoas que são contra os movimentos negros dizem: “ah, existe a separação de raças”. Raça negra foi o rótulo que a sociedade criou. E rótulo vende. E vende muito bem. Então, para melhorar realmente a questão racial no Brasil falta essa consciência, porque muitos se negam a aprender. Há a negação, o não querer saber, o não querer conhecer. Aí surgem o racismo e os preconceitos.
O Brasil ainda pode ser considerado um país racista e preconceituoso? E em que nível?
Ainda. E num nível bastante grande. Até porque o maior mal do Brasil é o racismo sutil. Essa sutileza de dizer que não existe. Isso confunde. Confunde quando você mostra por números, por desigualdades, o analfabetismo, a falta de trabalho. As pessoas sempre procuram puxar para si: “não, não sou preconceituoso, não sou racista”. Mas eu costumo dizer, em relação a todo aquele que “não é preconceituoso”: a empregada tem um quartinho nos fundos, e o cachorrinho fica dentro de casa, tem um lugar na cama. Então, aí você começa a comparar, começa a ver as diferenças que existem, o quanto é forte o preconceito. Então, o que eu posso dizer, assim, no Brasil, é que nós estamos avançando, sim. Desde as lutas dos anos 70, do Movimento Negro, avançamos a cada dia. Isso não dá para negar. Eu não diria tanto no Estado de Santa Catarina, mas no Brasil no seu todo, e até mesmo no município, como alguns outros municípios do Estado, que vêm tendo essa manifestação, fazendo esse trabalho.
O que é ter consciência negra? É construir novos conceitos. Recentemente, o professor e historiador José Roberto Severino, em uma atividade com educadores, mostrou uma foto do século XIX. Então, Itajaí não tinha porto, tinha apenas o rio, que vinha do Alto Vale e desembocava no mar. Itajaí foi um porto construído pela mão do homem. E muito desse trabalho foi feito pela mão escrava. E por que esta invisibilidade? Porque normalmente só fica muito evidente, muito forte, a questão da cultura açoriana. E por que não a mão do homem negro? Nesse trabalho de pedra, das igrejas, de construção, do escravo Simeão, que construiu a primeira igreja, o engenheiro foi lá, fez a planta, mas o homem que carregou a pedra, que fez acontecer, era uma mão escrava. Assim como a pesca da baleia neste litoral. E por que não aparecem, por que não são visíveis?
Você tinha falado em alguns avanços conquistados pela nossa população negra. Quais seriam, pontualmente, estes avanços do movimento negro?
Penso que um dos grandes avanços está na questão das cotas nas universidades. Tanto que já está baixando a poeira, no que diz respeito às revoltas contra as cotas. E em alguns estados maiores, existem também as cotas nos serviços públicos, que reflete na geração de empregos. Isso ainda não chegou aqui, mas vamos caminhar para que também aconteça.
Em algumas páginas e blogs de extrema direita na Internet, existe um argumento muito contundente contra a questão das cotas: é o de que existe uma conspiração para racializar o Brasil e institucionalizar o preconceito. E isso, segundo eles, viria por parte dos próprios movimentos negros. O que você pensa sobre isso?
Esta alegação foi uma das maneiras com que eles tentaram acabar com as cotas. Porque o grande mal da humanidade e, diria assim, de alguns brancos da nossa sociedade, é a questão da igualdade: “Nós não somos racistas, mas se estivermos aqui e o negro lá”.
As cotas nas universidades, os cursinhos gratuitos que estão se criando, isso tudo… Você vê que a questão das cotas foi difícil, e ainda é um processo difícil do próprio negro aceitar. E qual foi o trabalho que estes brancos, estes “não-racistas”, como dizem eles, fizeram? Foi dizer que adotar o sistema de cotas era inferiorizar. E a gente sabe que não era inferiorizar. Porque existem pesquisas, como a do Marcelo Paixão, a do Frei Davi, e vários outros, que provam que o aluno cotista se sai muito melhor em médias, na UnB (Brasília), na Federal de Salvador, na Federal do Rio de Janeiro. Em notas, os cotistas superam os não-cotistas.
Inclusive, este mesmo grupinho de extrema direita costuma dizer que as pesquisas são encomendadas…
Exato. E o que é que eles tentaram fazer com a sociedade negra que estava se utilizando das cotas? Dizer que cota menospreza, inferioriza e cria próprio racismo. Então, entre a nossa juventude, em que falta esse trabalho de auto-estima, falta essa questão de consciência, muitos se deixaram abalar. Os que não se deixam abalar, vão, entram e provam que podem.
Porque para não existir esse processo de cota, o ideal seria que tivéssemos ensino público com as mesmas condições, e isso está muito distante. Então, se nós formos esperar por isso, não caminharemos, não avançaremos. Não haverá avanços. E o interesse da extrema direita, realmente, é que esses espaços não sejam ocupados.
É demarcar o território que é deles… a universidade, o centro da cidade…
É deles. Exato, é deles. “Então, nós não seremos racistas se o negro continuar no gueto”.
Um outro argumento muito utilizado é o de que o próprio negro é racista, sobretudo consigo mesmo. O que você pensa sobre esta afirmação, de que o preconceito vem do próprio negro?
É. Dia desses eu ainda comprei uma briga. Porque me dói, me choca quando as pessoas vêm com este argumento. Não vou dizer que isso não acontece. Por que o que é que falta para o negro, quando ele se coloca nesta posição? Auto-estima. Se ele não tem referencial, se vem de uma família com grandes dificuldades, realmente falta.
O que acontece com a criança negra? A criança negra começa na escola, ela nunca é escolhida para dizer uma poesia, para participar de uma festinha… Sabe, em casa, normalmente tem uma separação, tem uma briga. Ela não constrói uma auto-estima. E se ela não constrói uma auto-estima, o que acontece com ela? Quando ela consegue subir o mínimo degrau que seja, ela se protege. Então, “ah, todo jogador de futebol negro fica rico e casa com uma branca”. Ele quer deixar o passado dele para trás. Porque faltou consciência. Faltou educação e faltou consciência. Às vezes teve até educação, porque você pega vários negros aí, formados no Ensino Médio, no Ensino Superior, que não têm a consciência da luta. Então, o que ele faz? Ele esquece que é negro e, se possível, casa com uma branca e vai clareando a família.
Quando o negro tem mais de uma referência, normalmente fica com aquela que não é negra…
É sempre a clara. Sempre a que não é negra.
E existe toda a questão do referencial convencionado pela sociedade, de que o branco é bom e superior…
Claro. É bom, é bonito… E quando você se aproxima do branco, você deixa as referências um pouco de lado, porque a história do branco é sempre uma história mais bonita…
E, para você, o que ainda deve ser vencido na sociedade? Quais as grandes dificuldades para o povo negro, de maneira geral?
Uma das maiores dificuldades, realmente, é essa falta de consciência. E é preciso eliminar esse pensamento, que ficou muito forte no Brasil, essa questão de que o Brasil é democrático racialmente.
A “democracia racial”, isso não existe. O Censo, agora, vem apontando como negra mais de 51% de uma população assumida. Então, isso é metade de um país que teve mão-de-obra escrava, que construiu as riquezas de um país… Foram as rodovias, foi o café, foi a cana-de-açúcar, enfim… E, depois, fazem a comparação, “ah, mas os italianos…”. Eles vieram para cá com terra, com família, trazendo até o padre. Eles chegavam e em qualquer lugar já formavam uma comunidade. Não foi o caso do negro, que foi arrancado à força…
O negro não veio, trazido…
Separados de familiares, de pai, mãe… um ficou no norte, outro ficou no sul… É uma história muito triste para em muito poucos anos se reverter. Quantos morreram nessa travessia? Quantos morreram?… E quando a mão-de-obra deles não foi mais necessária, foram jogados ao relento. Tem até uma letra de samba-enredo que diz: “Livre do açoite da senzala, preso na miséria da favela…”… E em pouco mais de cento e vinte anos, só… muitos vão continuar lá… e o Brasil defende uma “democracia racial”. Onde é que está essa democracia? Então este é um grande mito a ser derrubado, vencido, transposto. E isso só vai acontece quando tivermos consciência.
Hoje, através das Leis, iniciando estas discussões na escola, nos trabalhos com as crianças, podemos construindo um novo saber. Então, é papel primordial a formação de professores, a formação da sociedade. Nós não pensamos em construir novos guetos. E, sim, construir novos pensamentos com toda uma sociedade. Haver mais respeito, haver mais amor, haver mais igualdade. Esse eu penso que é o caminho a ser percorrido. Estamos caminhando. Estamos, sim. Porque, antigamente, a pessoa que falasse uma coisa dessas seria presa. E hoje a gente está aí, vencendo barreiras. E temos muitas a serem vencidas.
O trabalho de construir, você sabe que é difícil. E essa é a função dos movimentos negros. É construir, a cada dia, novos conceitos. Porque na construção dos novos conceitos nós derrubamos preconceitos. E isso tudo vem através da educação, da saúde, das políticas que são, sim, necessárias para que, realmente, num futuro, sabe-se lá quando, possamos dizer que nós somos uma sociedade mais igualitária.
Entrevista por: André Pinheiro – Jornalista – SC 01159/JP.